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segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O superlativo

O superlativo de voraz, 11 letras na horizontal. Sem dica.
Mais na metade da tarde o filho viria tirar satisfação, já sabia. Lembrava-se de tê-lo maldito à enfermeira no principiar da manhã, quando esta a veio trazer as palavras cruzadas do dia, que “não sei como fui parir menino tão ruim”. Não era ruim, desculpava-se a esmo agora, mas era de uma dureza demasiada que gostava de transparecer. “Não tem modos com a mãe”, tinha dito. Já lhe bastava o desconforto da cama do hospital, o arranhar seco dos lençóis que não se acomodavam nas dobras de seu tempo, no fado da flacidez, teria que ouvir ainda as asperezas do filho no ouvido já cansado.
“Su-per-la-ti-vo”.
Já imaginava até como adentraria ao quarto o Emílio, seu filho. Ia chegar com o passo forte de quem acha que domina o mundo, de quem acha que manda na mãe só porque a idade lhe dá direito. “Idade dá direito de nada”, confidenciava ao caderninho rabiscado.
11 letras na horizontal, sem dica.
Ele ia dizer, já sabia disso certo, que não entendia que diabos ela estava pensando para fazer essas loucuras, mesmo sabida que ia acabar caindo de cama, ficando de molho no hospital.
“Superlativo, palavra bonita”.
E ia, então, ela mesma levantar a voz: “não fala comigo no superlativo”, já treinava, esperando que fizesse algum sentido maior que o da beleza. E ia se divertir ao constatar na cara de Emílio, seu filho, que o tempo passa para todos, mas para cada um de uma forma. Ele ia chegar e dizer que ela estava, assim, com essas ideias tão modernas para uma senhora na beirada de seus 80 anos, maltratando a memória de seu falecido pai, dando pano para conversa do povo na rua, deboche de seu nome. “Deixe que falem”, ela já treinava a resposta.
“O superlativo deve ser uma palavra boa”.
Sem saber, vivia seu superlativo naquele dia. Felicíssima. Tinha as costas machucadas, que arqueara a coluna fadada ao desastre numa brincadeira com uma paixão nova, mas que a atirara na juventude perdida e roubada pelo tempo. Custara-lhe choros e risos, “mas o que é que não custa?”. Tempo não é coisa de se perder. Mas sentia-se culpada pelos descuidos daquela vida que parira, até um pouco sem saber por quê. Emílio não tinha mulher, nem filhos nem amor que se soubesse. “Tempo não é coisa de se perder”, ela ensaiava, que a solidão em qualquer idade é tempo perdido, e não lembrava de já ter dito coisa assim à sua cria. “Que descuido”.
E como imaginado aconteceu, conhecia bem o filho. Veio cheio de si, pediu respostas, queria saber que diabos, quase levantou a voz. “Não fala comigo no superlativo” ela disse uma, duas vezes. “Superlativo?”, “O superlativo de voraz, 11 letras na horizontal, sem dica”.
“Voracíssimo”.
“Assim como o amor”, foi ela. Não é ruim, só é meio rude, e tão sabido. “Assim como o tempo”. Ele quis dizer que sim, quis esbravejar, mas sabia que a moral da frase era mais funda que aquela. “O tempo que foi não volta”, ele pensou, era o que diziam por aí. “Cada coisa em seu tempo é uma ova”, ela quis dizer, mas um conselho deveras maldito a alguém tão jovem e de brios tão revoltados como os dele. “Se o tempo não tá de acordo, não acorde com ele”, ela disse, enfim, e deu uma piscadela. Ele quis dizer que sim, calou-se em consentimento e entendeu que, como o tempo, o amor se vive a cada dia. “Será que tempo é superlativo de amor?”, ele fez-se cúmplice. Não é ruim, só é meio rude, e tão sabido.


[Conto classificado no Primeiro Prêmio VIP de Literatura da A.R. Publisher Editora].

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